quarta-feira, 2 de julho de 2014

Ícones da aldeia

I - O Virgílio 

Desde sempre habitam nas minhas memórias aquelas figuras míticas, que fazem já parte da própria aldeia e até da sua cultura, sendo estes livros escritos de outros tempos.
Tive o prazer de reencontrar o Virgílio, figura intemporal da aldeia e com quem ocasionalmente privo. Os anos não lhe perdoaram, como não poupam ninguém na sua escalada para a velhice. Um homem que vive sozinho, com as suas amarguras, mas seguramente feliz com a vida que ostenta, pois nunca foi um homem de nariz empinado, mas sim o que de mais humilde pode ser encontrado por aquelas paragens.
Trata-se de alguém que vive apegado às suas raízes que brotam os seus sentimentos naquela terra que é também o seu berço. Foi sempre uma figura muito acarinhada, um homem íntegro, que fugia da maledicência e da intriga que prolifera por todo o lado, pois todos somos diferentes, pensamos e sentimos de maneira diferente.
Faz parte do cardápio turístico e presencial de uma aldeia que vai perdendo a sua identidade que se escoa com o emagrecimento populacional de uma aldeia que outrora teve uma vida rural muito activa e com muita juventude. Tempos em que ainda se faziam bailes no café do Senhor Eduardo e da Senhora Maria que por força da vida deixaram de explorar o estabelecimento.

II – O João e o Zé

Recentemente mais duas almas foram tragadas pelas trevas que enublaram a pacatez da aldeia, cobrindo de luto a família de residentes da aldeia.
Atravessaram o rio da morte com auxílio do barqueiro a quem não terão pago de bom grado tal viagem. Primeiro foi o Zé, logo acompanhado dias depois pelo João que não aguentou a dor visceral de perder o irmão, sendo deste muito dependente. Um vazio habita agora na casa com as dependências amorfas e sem pingo de vida. Foi esse cantinho que habitaram desde que me conheço, agora ocupado por um silêncio entristecido, com cheiro a morte, que se entranhou naquela casa e noutras que viram as almas dos seus habitantes partir.  
Recordo-me com saudade das suas feições, dos seus sorridos e da sua educação para comigo, apesar de se tratarem de pessoas humildes perante a vida. Quanto ao João falava pouco e tinha alguns problemas que lhe limitavam o contacto com as gentes, pelo menos dos tempos que com ele privei foi essa a impressão que me causou. Foram homens rústicos, trabalhadores do campo, cumprindo as tarefas que os campos exigiam, deslocando-se a pé para os terrenos na aldeia e para outros da aldeia vizinha – Vassal.

III- Conclusão
Todos eles são ou foram postais ilustrados de uma vida pacata e pachorrenta que corre sem pressas e que bem descrevem o rosto de uma aldeia que já viveu tempos de prosperidade. Apesar das várias intervenções ali levadas a efeito, muitas revelaram-se desastrosas e dúbias na minha modesta opinião e que levantam muitas questões éticas e deontológicas de algumas gentes menos humildes e a quem a verdade foge para um canto, escondida em malabarismos sombra de atitudes menos próprias.
Mas isso não importa para esta crónica, pois o que pretendo é homenagear os acima visados que merecem toda a minha estima.
São aliás memórias que valem a pena recordar e alimentar sempre que é possível! Felizmente no caso do Virgílio apesar de ser um fumador inveterado, temos ainda o prazer de o ter no mundo dos vivos e que tal se verifique por muitos e bons anos. 
Como disse revi-o, numa manhã de final de Junho do ano corrente, quando me deslocava para o Vale do Silêncio para velar pela alma dos ente-queridos que já partiram.
Quanto ao Virgílio, esse continua a ser quem é … ele próprio!


João Salvador – 28/06/2014

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